A Boneca e o Fidalgo

“No fundo, os livros são isto: conversas sobre a vida. E é urgente, sobretudo, aprender a conversar”. Yolanda Reyes

Quando começamos a pensar no Trilhar Leituras, dois personagens vieram logo à nossa mente: Emília e Dom Quixote. Emília, aquela bonequinha de pano sem papas na língua, que diz o que pensa sem medo de críticas. Às vezes egoísta, às vezes mal criada, metida mas também muito divertida e esperta. Uma vez, quando Visconde estava escrevendo a biografia dela, perguntou o que ela era, e ela respondeu: “Sou a Independência ou Morte”. Emília é pura liberdade. Já Dom Quixote de la Mancha que se transforma em um cavaleiro andante, aparece como uma figura tão humana, que muitas vezes nos esquecemos de que é literatura. Seu lema é proteger os fracos e oprimidos e salvar as donzelas em perigo. É ridicularizado por todos aqueles que não conseguem ver suas virtudes, sua bondade e sua coragem para salvar  os sofredores das injustiças do mundo. Emília e Dom Quixote são personagens fascinantes da literatura que nos dizem muito sobre os outros e sobre nós mesmos.

Dom Quixote por Gustave Doré.

Na cena acima, nosso cavaleiro andante em uma ilustração de Gustave Doré.  O Cavaleiro está sentado em uma poltrona com um livro na mão e uma espada na outra. Ao redor mais livros, dragões, cavaleiros, princesas, ogros e muito mais. Uma imagem que vale mais que mil palavras.

Emília e o cavaleiro andante se encontram algumas vezes. Segundo Marisa Lajolo, Dom Quixote é um personagem recorrente na obra de Lobato: “toma café com bolinhos na varanda do sítio em O Picapau Amarelo e é inspiração da peça que Emília monta em Hollywood, em Memórias de Emília“. Em 1936, Monteiro Lobato adapta a obra e a rebatiza “Dom Quixote para crianças”. A história começa com Emília tentando alcançar os livros mais distantes na estante e por serem os mais difíceis de serem alcançados, eram os mais desejados pela boneca. Finalmente alcança o Dom Quixote, dois livros “enormíssimos e pesadíssimos”. Após ter acesso ao livro a boneca lê o título e o autor e logo implica com o sobrenome: “-— Saavedra! — exclamou. — Para que estes dois aa aqui, se um só faz o mesmo efeito? — e, procurando um lápis, riscou o segundo a”. Quando abre o livro depara-se com ilustrações que chamam a sua atenção: “Que beleza!” As gravuras eram de Gustave Doré  “sujeito que sabia desenhar muito bem”, disse ela. Dona Benta resolve ler o livro para as crianças, mas estas não entendem nada e acham difícil aquela linguagem, Emília ameaça ir embora brincar. Como uma verdadeira contadora de histórias que é, Dona Benta põe todos à sua volta e começa a contar a história do cavaleiro andante com suas próprias palavras. A certa altura, Emília “suspira e imagina como seria bom ter um cavaleiro andante que corresse mundo berrando que a mais linda de todas as bonecas era a Senhora Emília de Rabicó” e poderia aparecer um Cervantes que contasse a história e ela ficaria famosa no mundo todo.  Narizinho diz para Emília que ela já estava bem famosa no Brasil inteiro “de tanto Lobato contar as suas asneiras”. Emília fica tão envolvida com a história, que vai buscar uma vassoura e começa a espetar a todos dizendo que aquela era sua lança, coloca um cinzeiro na cabeça e diz que era o elmo de Mambrino, e monta no pobre Visconde, dizendo que este era Rocinante. Emília deixou-se envolver pela história, como Dom Quixote se envolveu com os contos de cavalaria. Na ultima página do livro, Monteiro Lobato homenageia Dom Quixote com belas palavras ditas por Emília. Os dois Quixotes são clássicos eternos que nos emocionam e nos fazem rir.

Emília e Visconde na Ilustração  de André Le Blanc.
Emília e Visconde tentam alcançar os livros na parte mais alta da estante. Ilustração de André Le Blanc.

Referências

Lajolo, Marisa: Dom Quixote: quando Monteiro Lobato apresentou o imortal cavaleiro às crianças.  in: http://lobato.globo.com/novidades/novidades32.asp

Lobato, Monteiro: Dom Quixote das Crianças. Rio de Janeiro. Ed. Globo, 2007.

_______Reinações de Narizinho. Rio de Janeiro. Ed Globo, 2011.

Machado, Ana Maria: Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro. Objetiva, 2009

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