Na Floresta de Anthony Browne

Anthony Browne não precisa de muitas apresentações, pois é um dos mais importantes e premiados autores de livros infantis. Ganhador do maior prêmio da literatura infantil, o prêmio Hans Christian Andersen, tem mais de 40 livros publicados. Em suas histórias o autor traz muitas referências da história da arte e em grande parte delas os gorilas são os personagens principais. No entanto, o livro escolhido hoje é Na Floresta e os gorilas não estão presentes mas vamos encontrar muitos outros personagens.

Na Floresta
Carregado de metáforas visuais, Na Floresta é um livro cheio de referências aos contos de Fadas. O trabalho do autor e ilustrador faz uma mistura de cenas hiper-realistas com o mundo da fantasia. Junto a um texto inteligente traz boas surpresas ao leitor. Pela estrada a fora não vamos sozinhos levar os doces para a vovozinha. Alice, João e Maria, e outras referências estão ali as vezes no caminho, outras vezes escondidos na floresta. Aqui não acompanhamos a Chapeuzinho até a casa da avó e sim um menino de sapatinhos vermelhos. O uso do recurso da intertextualidade só enriquece o livro.

O encontro com os personagens no meio do caminho é também um encontro  desse  menino com ele mesmo, com os personagens que fazem parte da sua trajetória literária. Somos também aquilo que lemos. Carregamos os personagens que nos apaixonamos. Quem faz parte da sua trajetória literária? Pensei nisso quando li o livro de Browne. Na minha tem Emília, Macabéia, Raskolnikof, Diadorim, Riobaldo, Merceau, Bentinho e tantos outros…E você? Quem faz parte da sua estrada, do seu caminho?

Nossa jornada começa pela capa: Aqui podemos ter uma ideia do que vem por aí. Um menino caminha por uma floresta com um cesto na mão. Uma referência a Chapeuzinho Vermelho, embora seja um menino. Não há capinha vermelha, por enquanto, mas os sapatinhos são vermelhos.

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Logo no início da história o menino está dormindo em seu quarto e acorda com o barulho do trovão. Os raios iluminam o quarto escuro e no chão vemos um soldadinho de chumbo, uma clara referência ao conto de Hans Christian Andersen. De manhã o pai não está em casa. A mãe diz que não sabe quando ele vai voltar. O que será que aconteceu? A mãe parece triste. Na imagem seguinte, a foto da família emoldurada na parede traz um detalhe importante. Aqui na nossa imagem não dá para perceber, mas no livro olhe e descubra!!

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Mais um dia se passa, a saudade do pai é grande. Para ressaltar esse sentimento vemos vários bilhetes espalhados onde se lê: “volta para casa, papai”. As imagens dizem muito mais que o texto. O autor não pretende que a ilustração preencha as lacunas do texto ou que o texto descreva a imagem. A relação entre imagem e texto é mais que isso. Existe um espaço entre o que o texto diz e o que a imagem sugere e segundo o autor, em uma de suas entrevistas, é nesse “gap” que a criança preenche com sua imaginação o que texto e imagem sugerem. Browne faz parte da geração de autores, influenciados pelo mestre Maurice Sendack, que compreende a dinâmica entre texto e imagem, entre o visual e o verbal, como um grande campo a ser explorado e dele resultando muitas possibilidades de interpretação pelo leitor.

Na próxima imagem vemos a mãe, de casaco vermelho pede ao filho para levar um bolo para a avó que não estava passando muito bem. E assim como no texto de Chapeuzinho Vermelho a mãe enfatiza para que ele não vá por dentro da floresta e sim pelo caminho mais longo, porém mais seguro. Mas é claro que ele quer chegar logo à casa da avó e escolhe o caminho mais rápido, por dentro da floresta. Aqui as crianças já fizeram a associação e confirmam pelo o recurso do casaco vermelho da mãe e os sapatinhos vermelho do filho, e os demais recursos visuais e verbais, sua relação com o conto de fadas que tanto conhecem. Ao virar a página temos a sensação que já vamos saber o que vem depois. O menino deixa o ambiente da cidade e chega a floresta o que nos remete a outro grande clássico da literatura infantil: “Onde vivem os monstros”, de Mauride Sendack. Na história Max está em seu quarto de castigo e, aos poucos, o quarto vai se transformando em uma floresta, e Max entra no mundo do faz conta. Mas esta é outra história!

E aqui? Quando o menino vai encontrar o lobo? O autor não entrega respostas óbvias e traz o leitor para um jogo gostoso onde as referências a outros contos de fadas clássicos são reconhecidas pelas ilustrações. Alice, João e Maria, Cinderela, entre outros estão todos ali na floresta. Em cada encontro ele precisa tomar a decisão de seguir em frente. As ilustrações das árvores são incríveis e parecem adquirir expressões humanas ou de referências aos contos de fadas. Quando encontra com Alice vemos o contorno e a pele do coelho desenhado ao tronco das árvores. O recurso da intertextualidade não é incomum. O próprio Monteiro Lobato traz para o sítio a visita ilustre dos personagens do “Mundo das Maravilhas” e até Barba Azul, se não me engano,  foi convidado para a festa preparada por Emília, Pedrinho e Narizinho. A intertextualidade aqui nos faz buscar mais referências nas imagens, que muitas vezes só se revelam após uma segunda ou terceira leitura.

Lendo o livro de outra forma poderíamos pensar que atravessar a floresta sozinho é também um rito de passagem. Ao longo do caminho ele vai enfrentar o medo, vai ter que tomar decisões sozinho e seguir em frente. Caminhar é preciso. É um aprendizado.
O medo o faz perceber, por vezes, uma floresta hostil, as arvores tem espinhos enormes. Ao logo do caminho as árvores se mostram de acordo com o sentimento do menino e com os personagens que habitam nela.

O menino com seus sapatinhos vermelhos vai caminhando até encontrar uma capinha vermelha. Está nevando. Ele coloca a capinha e vai para a casa da vovó. O menino é o único personagem colorido numa clara alusão entre realidade e fantasia. Ao chegar a casa da avó uma forma quase passa desapercebida. A casa parece ter orelhas de lobo!! Browne usa o formato das árvores para esse efeito. São recursos fantásticos. Até porque o lobo aparece discretamente em uma cena do livro, mas não encontra com o menino em nenhum momento. Quando você identifica as “orelhas” na casa, você imagina que vai encontrar o lobo lá dentro. Será que ele engoliu a vovó e espera o menino?

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Olhe atentamente as imagens pois muitas surpresas estão escondidas nelas. As crianças (e nós, claro!) adoram esse recurso e não se surpreenda pois elas identificarão esses símbolos muito mais rápido do que você!

 

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2 comentários sobre “Na Floresta de Anthony Browne

  1. marlitera2015 janeiro 11, 2018 / 12:12 am

    Que leitura bacana. Parabéns, está ótimo. Bjs, Marta.

    • Isabel Mello janeiro 11, 2018 / 10:41 am

      Que bom que gostou! Bjs

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