Mulheres Fantásticas: Wangari Maathai

A literatura é uma coisa maravilhosa. Nunca havia lido nada sobre Wangari Maathai até encontrar o livro “Plantando as árvores do Quênia: a história de Wangari Maathai” de Claire A. Nivola. A autora e ilustradora nos traz a inspiradora história daquela que, em 2004, foi a primeira mulher na África  a receber o Nobel da Paz por sua luta pela: preservação do meio ambiente, desenvolvimento sustentável, ideais democráticos e promoção dos direitos das mulheres! Wangari nasceu no Quênia e quando era criança a região onde morava era repleta de verde com florestas cheias de flamboaiãs e oliveiras. Ficamos sabendo que foi uma criança feliz e que perto da sua casa havia uma enorme figueira, árvore considerada sagrada por seu povo. Havia riachos com águas limpas e muitos peixes. Para contar essa história a autora nos presenteia com lindas ilustrações!

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Wangari cresceu e foi estudar biologia nos Estados Unidos através de um programa criado pelo então senador americano John F Kennedy.  No retorno ao país, apenas 5 anos depois, encontra o Quênia em grande devastação ambiental. As figueiras haviam sido cortadas e não havia mais as pequenas plantações para o consumo familiar. O alimento agora tinha que ser comprado e era caro. E não havia água limpa para beber, os peixes e riachos desapareceram. Wangari, essa mulher incrível, decidiu mudar essa realidade. Em 1977 começou uma campanha com as mulheres locais, em Nairóbi, para recolher sementes das árvores que ainda restavam e criou o “Movimento Cinturão Verde”.

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O livro aborda como a mudança foi feita, desde a coleta das sementes, as dificuldades enfrentadas como escassez de água, o cultivo das mudas e a conscientização da população.

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Quando Wangari morreu em 2007 mais de 47 milhões de árvore haviam sido plantadas no Quênia e o Movimento Cinturão Verde já contava com mais de 100 mil membros.

Plantando as árvores do Quênia: a história de Wangari Maathai. Editora SM.

 

 

 

 

 

 

Grandes mulheres que mudaram o mundo!

Mulheres Fantásticas!

Dois livros sobre mulheres pioneiras que ajudaram a construir um mundo melhor me chamaram a atenção: “Grandes mulheres que mudaram o mundo”  e “Plantando as árvores no Quênia: a história de Wangari Maathai”. São dois ótimos livros para apresentar às meninas e aos meninos conquistas de mulheres fantásticas! Aliás, Wangari Maathai poderia estar no livro das grandes mulheres! Sua história é muito bonita e inspiradora! Neste post vamos falar sobre “Grandes Mulheres” e no próximo nos encontramos com a Wangari.

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Kate Pankhurst, autora e ilustradora do livro “Grandes Mulheres que mudaram o mundo“,  é descendente de Emmeline Pankhurst, uma das fundadoras do movimento sufragista na Inglaterra em 1889! O direito das mulheres ao voto na Inglaterra só foi conquistado em 1928!  Kate, autora e ilustradora, fez uma seleção muito bacana e inclui, claro, Emmeline! Temos ainda nossa Chiquinha Gonzaga junto a Frida Khalo, Marie Curie,  Jane Austen, Annie Frank entre outras menos conhecidas como Sacagawea.  Há ainda Rosa Parks e Mary Seacole personagens que as meninas negras vão se identificar (não custa lembrar que representatividade importa muito!). O livro mostra como todas essas mulheres incríveis seguiram seus ideais e estiveram a frente de seu tempo. Seja cruzando os céus, atravessando o canal da mancha, revolucionando a ciência ou se posicionando firmemente, essas mulheres fizeram história e mudaram o mundo.

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Oh abre alas que eu quero passar

O livro já ganhou meu coração quando vi Chiquinha Gonzaga! A ilustração ficou uma graça! Há muitos anos atrás a história da compositora foi interpretada por Gabriela e Regina Duarte e acabei por internalizar a imagem dela branca, não me lembrava que na verdade Chiquinha tinha origem negra! Quando vi a ilustração de Kate Pankhurst é que me dei conta e fui pesquisar! Sua música tem, claro, influência de sua origem africana! Chiquinha Gonzaga foi uma grande compositora, pianista e maestrina . Foi ainda a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e é a autora da primeira marchinha de carnaval que cantamos até hoje “O abre alas”,  composta em 1899. Chiquinha Lutou contra a escravidão e foi uma mulher independente, dona de seu destino e de sua vida. No livro a autora diz: “com suas atitudes, ela ajudou a mostrar que as mulheres devem ser livres para fazer suas próprias escolhas e seguir seus talentos”. Viva Chiquinha Gonzaga!

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Outra história inspiradora é a de Mary Seacole. Uma determinada enfermeira filha de um escocês e uma jamaicana que fundou um hospital para cuidar dos soldados na Guerra da Criméia (1853-56). A  Sra Seacole saiu da Jamaica para a Inglaterra para se oferecer como voluntária em um grupo enfermeiras que ajudariam soldados feridos e que acompanhariam Florence Nightingale. Mary, mesmo com as cartas de referências, não foi aceita. Mas ela não se deixou abalar e foi assim mesmo para a Criméia e lá teve papel importantíssimo. A Sra Seacole construiu o Hotel Britânico, que na verdade, como informa o livro, era um hospital e lá cuidou de muitos soldados feridos pela guerra e para ela não importava se eram russos ou britânicos, se estava ferido, ela cuidava. Quando a Guerra acabou, a Sra Seacole voltou para a Inglaterra sem dinheiro algum. Ela gastou tudo ajudando os soldados. Muitas pessoas que ela cuidou ou que ficaram sabendo da sua importância na guerra decidiram ajudá-la. Diferente de sua contemporânea, a enfermeira Florence Nightingale, que ficou famosa por sua contribuição nos cuidados aos soldados na Guerra da Criméia, Mary Jane Seacole só  teve a história resgatada em 1973, quando uma enfermeira britânica encontrou, por acaso, a autobiografia “As Maravilhosas Aventuras da Sra Seacole em Muitas Terras” que havia sido publicada em 1857!

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Mary Anning, uma paleontologista do final do século XIX,  também ajudou a mudar o mundo! Suas descobertas ajudaram a ciência a compreender a vida pré-histórica e entender a história da Terra! Mary nasceu na Inglaterra e sua família vivia da venda de fósseis encontrados na praia. Ela era muito boa em encontrar fósseis e fez grandes descobertas para a ciência! Quando tinha apenas 12 anos fez sua primeira grande descoberta, um ictiossauro (um espécie de réptil marinho). Por ser mulher e de origem pobre nunca pode participar da comunidade científica britânica! Os cientistas e geólogos da época a procuravam para saber mais sobre suas descobertas mas nem sempre davam os créditos a Mary Anning. Hoje algumas de suas descobertas estão no Museu de História Natural de Londres e Mary Anning é considerada uma das dez britânicas mais importantes para a história da ciência!

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Fiquei tão empolgada com o livro que saí pesquisando sobre essas mulheres fantásticas e fiquei com vontade de compartilhar aqui. Mas não contei tudo não, eu juro rsrs!

Livro: “Grandes mulheres que mudaram o mundo”.

Autora: Kate Pankhusrt

Editora: V&R Editoras

Fotos para o blog: Ticiana ( minha irmã 😉 )

 

Tio Flores

Tio Flores

Domingo encontrei “Tio Flores” na livraria. Ele não estava sozinho. Estava com Edinho. Tio Flores é costureiro na (fictícia) cidade de Olhos D´água, às margens do rio São Francisco. Com alegria pego o livro e vou dialogar com os dois personagens, descobrindo com eles as memórias de minha própria família.

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Quando encontrei “Tio Flores” eu também não estava sozinha. Estava com minha mãe e quando mostrei a ela o livro e começamos a ler juntas ela logo se lembrou de um tio: o Tio Fizin, grande costureiro na cidade de Miraí, em Minas Gerais.  Tio Fizin assim como Tio Flores era solteiro, morava sozinho e recebia os sobrinhos com grande alegria em sua casa. Minha mãe gostava muito de passar as tardes na casa do tio, tomar café adoçado com rapadura e aprender a pregar botões.

No livro, a história é contada por Edinho, que relembra a infância quando passava as tardes na casa do tio, aprendia com ele cortar o tecido, alinhavar, costurar botões. Ele observava o tio trabalhando na antiga máquina de costura. -“Quando crescer, quero ser costureiro como você, Tio Flores”, diz Edinho. O menino, ao nos cotar a história,  diz não se esquecer do barulho da máquina. Minha mãe encantada dizia enquanto líamos juntas, “era esse mesmo o barulho da máquina do Tio Fizin”. Minha mãe ao ler as onomatopeias ouviu o som da máquina de seu Tio Fizin. Naquele momento voltou no tempo e se encontrou com o tio que estava lá perdido em suas memórias e que eu nunca tinha ouvido falar. Minha mãe contou que Tio Fizin foi um dos poucos membros da nossa família que na época conseguiu comprar a própria casa.

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Tio Flores além de grande costureiro também gostava de contar histórias. Quando o menino chegava da escola e terminava seus deveres na mesa da cozinha, ficava com o tio conversando. Assim, ouvimos junto a Edinho histórias do rio São Francisco e as transformações advindas do impacto da chegada de uma fábrica no vilarejo. Ao mesmo tempo em que a fábrica traz empregos e novos moradores também tira empregos e traz problemas ambientais como a poluição do rio. O pequeno vilarejo se transforma em cidade grande.

As ilustrações retratam muito bem o cotidiano e as mudanças ocorridas na cidade. Com recortes de papéis e tecidos a autora cria referências do mundo de quem mora no interior: uma imagem de São Jorge na parede, o espelho de moldura laranja no banheiro. Eymard Toledo nos apresenta  ao rio São Francisco, ao vilarejo, à fábrica, às lavadeiras e aos pescadores e as questões ambientais que são tão importantes.

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Uma das coisas que me fez pegar o livro da escritora mineira Eymard de Toledo foi o fato dos personagens serem negros. Estou sempre à procura de boa literatura onde o negro possa se ver na história como protagonista. Representatividade importa muito e penso em cada menino e menina negro/a que vai se sentir confiante a cada boa literatura onde se reconheça nos personagens.

Minha mãe se reconheceu, eu me reconheci e assim as memórias são costuradas como as lindas colchas de retalhos que minha avó fazia. A cada retalho, a cada pedaço de tecido vamos reconstruindo a criança que habita dentro da gente.

Tio Flores – Uma história às margens do Rio São Francisco. V&R Editoras. R$ 34,90

Na Floresta de Anthony Browne

Anthony Browne não precisa de muitas apresentações, pois é um dos mais importantes e premiados autores de livros infantis. Ganhador do maior prêmio da literatura infantil, o prêmio Hans Christian Andersen, tem mais de 40 livros publicados. Em suas histórias o autor traz muitas referências da história da arte e em grande parte delas os gorilas são os personagens principais. No entanto, o livro escolhido hoje é Na Floresta e os gorilas não estão presentes mas vamos encontrar muitos outros personagens.

Na Floresta
Carregado de metáforas visuais, Na Floresta é um livro cheio de referências aos contos de Fadas. O trabalho do autor e ilustrador faz uma mistura de cenas hiper-realistas com o mundo da fantasia. Junto a um texto inteligente traz boas surpresas ao leitor. Pela estrada a fora não vamos sozinhos levar os doces para a vovozinha. Alice, João e Maria, e outras referências estão ali as vezes no caminho, outras vezes escondidos na floresta. Aqui não acompanhamos a Chapeuzinho até a casa da avó e sim um menino de sapatinhos vermelhos. O uso do recurso da intertextualidade só enriquece o livro.

O encontro com os personagens no meio do caminho é também um encontro  desse  menino com ele mesmo, com os personagens que fazem parte da sua trajetória literária. Somos também aquilo que lemos. Carregamos os personagens que nos apaixonamos. Quem faz parte da sua trajetória literária? Pensei nisso quando li o livro de Browne. Na minha tem Emília, Macabéia, Raskolnikof, Diadorim, Riobaldo, Merceau, Bentinho e tantos outros…E você? Quem faz parte da sua estrada, do seu caminho?

Nossa jornada começa pela capa: Aqui podemos ter uma ideia do que vem por aí. Um menino caminha por uma floresta com um cesto na mão. Uma referência a Chapeuzinho Vermelho, embora seja um menino. Não há capinha vermelha, por enquanto, mas os sapatinhos são vermelhos.

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Logo no início da história o menino está dormindo em seu quarto e acorda com o barulho do trovão. Os raios iluminam o quarto escuro e no chão vemos um soldadinho de chumbo, uma clara referência ao conto de Hans Christian Andersen. De manhã o pai não está em casa. A mãe diz que não sabe quando ele vai voltar. O que será que aconteceu? A mãe parece triste. Na imagem seguinte, a foto da família emoldurada na parede traz um detalhe importante. Aqui na nossa imagem não dá para perceber, mas no livro olhe e descubra!!

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Mais um dia se passa, a saudade do pai é grande. Para ressaltar esse sentimento vemos vários bilhetes espalhados onde se lê: “volta para casa, papai”. As imagens dizem muito mais que o texto. O autor não pretende que a ilustração preencha as lacunas do texto ou que o texto descreva a imagem. A relação entre imagem e texto é mais que isso. Existe um espaço entre o que o texto diz e o que a imagem sugere e segundo o autor, em uma de suas entrevistas, é nesse “gap” que a criança preenche com sua imaginação o que texto e imagem sugerem. Browne faz parte da geração de autores, influenciados pelo mestre Maurice Sendack, que compreende a dinâmica entre texto e imagem, entre o visual e o verbal, como um grande campo a ser explorado e dele resultando muitas possibilidades de interpretação pelo leitor.

Na próxima imagem vemos a mãe, de casaco vermelho pede ao filho para levar um bolo para a avó que não estava passando muito bem. E assim como no texto de Chapeuzinho Vermelho a mãe enfatiza para que ele não vá por dentro da floresta e sim pelo caminho mais longo, porém mais seguro. Mas é claro que ele quer chegar logo à casa da avó e escolhe o caminho mais rápido, por dentro da floresta. Aqui as crianças já fizeram a associação e confirmam pelo o recurso do casaco vermelho da mãe e os sapatinhos vermelho do filho, e os demais recursos visuais e verbais, sua relação com o conto de fadas que tanto conhecem. Ao virar a página temos a sensação que já vamos saber o que vem depois. O menino deixa o ambiente da cidade e chega a floresta o que nos remete a outro grande clássico da literatura infantil: “Onde vivem os monstros”, de Mauride Sendack. Na história Max está em seu quarto de castigo e, aos poucos, o quarto vai se transformando em uma floresta, e Max entra no mundo do faz conta. Mas esta é outra história!

E aqui? Quando o menino vai encontrar o lobo? O autor não entrega respostas óbvias e traz o leitor para um jogo gostoso onde as referências a outros contos de fadas clássicos são reconhecidas pelas ilustrações. Alice, João e Maria, Cinderela, entre outros estão todos ali na floresta. Em cada encontro ele precisa tomar a decisão de seguir em frente. As ilustrações das árvores são incríveis e parecem adquirir expressões humanas ou de referências aos contos de fadas. Quando encontra com Alice vemos o contorno e a pele do coelho desenhado ao tronco das árvores. O recurso da intertextualidade não é incomum. O próprio Monteiro Lobato traz para o sítio a visita ilustre dos personagens do “Mundo das Maravilhas” e até Barba Azul, se não me engano,  foi convidado para a festa preparada por Emília, Pedrinho e Narizinho. A intertextualidade aqui nos faz buscar mais referências nas imagens, que muitas vezes só se revelam após uma segunda ou terceira leitura.

Lendo o livro de outra forma poderíamos pensar que atravessar a floresta sozinho é também um rito de passagem. Ao longo do caminho ele vai enfrentar o medo, vai ter que tomar decisões sozinho e seguir em frente. Caminhar é preciso. É um aprendizado.
O medo o faz perceber, por vezes, uma floresta hostil, as arvores tem espinhos enormes. Ao logo do caminho as árvores se mostram de acordo com o sentimento do menino e com os personagens que habitam nela.

O menino com seus sapatinhos vermelhos vai caminhando até encontrar uma capinha vermelha. Está nevando. Ele coloca a capinha e vai para a casa da vovó. O menino é o único personagem colorido numa clara alusão entre realidade e fantasia. Ao chegar a casa da avó uma forma quase passa desapercebida. A casa parece ter orelhas de lobo!! Browne usa o formato das árvores para esse efeito. São recursos fantásticos. Até porque o lobo aparece discretamente em uma cena do livro, mas não encontra com o menino em nenhum momento. Quando você identifica as “orelhas” na casa, você imagina que vai encontrar o lobo lá dentro. Será que ele engoliu a vovó e espera o menino?

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Olhe atentamente as imagens pois muitas surpresas estão escondidas nelas. As crianças (e nós, claro!) adoram esse recurso e não se surpreenda pois elas identificarão esses símbolos muito mais rápido do que você!

 

Espelho: O negro como protagonista na literatura infantil

“Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim!”

Foi assim que um menino da 5a série de uma escola em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, explicou a sua professora porque havia pintado de marrom os personagens da Turma da Mônica na capa da  prova. Essa história aconteceu em 2014 e muitos ainda devem se lembrar. A atitude de Cleidison, na época com 10 anos, trouxe à tona a pouca visibilidade do negro nas histórias infantis. Cleidson, assim como muitas outras crianças brasileiras, não se via representado nas histórias infantis a que tinha acesso.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie, na palestra “O perigo de uma única história” no TED (Technology, Enterteinement and Design) aqui , faz uma bela reflexão sobre a construção de estereótipos, de pessoas ou lugares, através de histórias únicas contadas repetidamente. Chimamanda conta sobre sua infância e diz que quando criança teve acesso muito cedo a literatura e foi uma leitora precoce, por volta dos 4 anos já sabia ler. Porém os livros a que tinha contato eram americanos ou britânicos onde os personagens eram muito diferentes dela. Aos 7 anos ela começou a criar suas próprias histórias e reproduzia as características europeias em seus personagens: sempre brancos e de olhos azuis. O que a escritora chama a atenção é que não havia histórias em que ela pudesse se reconhecer. Tudo o que ela havia lido até então eram livros nos quais os personagens eram estrangeiros “eu me convenci de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar”.

Isso aconteceu até o dia em que a autora entrou em contato com a literatura africana. A partir daí sua visão mudou: “Eu passei por uma mudança mental em minha percepção de literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia”.  Assim como Cleidson, Chimamanda precisava de espelhos, precisava se reconhecer nas histórias.

Onde está o negro na literatura brasileira? A escritora e professora da UNB, Regina Dalcastagnè, fez uma pesquisa sobre a literatura contemporânea brasileira que durou 15 anos e na qual constatou  a pouca presença de negros nos romances brasileiros e, quando essa presença existe, são personagens quase sempre de figuras marginais. O trabalho pesquisou todos os romances brasileiros publicados pelas principais editoras do país entre os anos 1990 a 2004 e 258 romances analisados, concluiu-se que 96% dos autores e 76% dos personagens são brancos. O que podemos entender com essas informações? A sociedade contemporânea está realmente representada na literatura?  A pouca visibilidade do negro na literatura é um dos reflexos de uma sociedade ainda racista e o racismo dificulta a visibilidade do negro na literatura, seja como autor ou personagem. Essa discussão é longa, temos o mercado editorial, os prêmios literários, entre outros fatores, que homogenizam a literatura contemporânea brasileira. Vale a pena a leitura do livro  “Literatura brasileira contemporânea: Um território contestado”, 2012, ed. Horizonte.

No Brasil, um importante passo no reconhecimento do negro na formação da sociedade brasileira foi a implementação da lei 10.639/03 que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira no ensino fundamental e ensino médio em toda a rede de ensino ( publica e particular). A lei estabelece “ o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil“. A partir daí, para atender a nova demanda escolar, muitos livros sobre a cultura africana começaram a despontar nas editoras. A demanda por histórias representando a cultura negra abriu um novo mercado. Muitos livros contando histórias do continente africano foram lançados. Mas há ainda muito a ser feito. A falta de conhecimento e de comprometimento, e até mesmo o racismo e a falta de formação de professores, são entraves para que o tema esteja nas salas de aula.

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A literatura  infantojuvenil pode ser o espelho, o começo da transformação para meninos como Cleidson. Uma literatura onde o negro seja sujeito da história, referência, o protagonista principal. Queremos livros que falem da nossa diversidade.  Queremos as histórias de reis e rainhas africanas, das lendas, das línguas e dialetos de diferentes povos que vivem em um continente tão grande como a África. Queremos também histórias comuns. As crianças negras querem se ver nos livros não apenas como parte de uma herança cultural, mas também como heróis, princesas, super-heróis, ou apenas como crianças que brincam, que se divertem e que a cor de sua pele ou o seu cabelo não sejam as principais questões abordadas na história. Que as crianças possam ser quem elas quiserem ser e que possam sonhar através da literatura. Para isso livros variados devem estar a disposição das crianças para que elas possam escolher o que elas querem ler!

Graça Lima e Mariana Massarani são autoras e ilustradoras que têm essa percepção de criar histórias com personagens com características bem brasileiras. No livro “Cadê”, de Graça Lima, editora Nova Fronteira, o protagonista é um menino negro, de uns dois anos, que brinca com a imaginação e transforma objetos da casa em animais: o sofá vira um rinoceronte, a geladeira se transforma em urso polar.  Outro livro,  “Banho”, de Mariana Massarani, conta a historia de quatro irmãos que na hora do banho criam as maiores aventuras. Os personagens têm a pele morena, como a maioria dos brasileirinhos. Outros títulos ilustrados por Mariana Massarani são: “Controle Remoto” com ótimo texto de Tino Freitas; “A menina que não era maluquinha e outras histórias” da Ruth Rocha. Em todas essas histórias personagens negros estão ali presentes para mostrar nossa diversidade. E essa também é uma forma de combater o racismo.

“O menino Nito” é outro belo exemplo. A autora Sonia Rosa (mesma autora do livro “Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta”) traz a história do menino Nito que desde de muito pequeno sempre chorava por qualquer coisa e ninguém aguentava mais. Um dia seu pai diz  que homem não chora e Nito passa a engolir o choro. Qual será a consequência disso?  Com ilustrações de Victor Tavares acompanhamos a história de Nito e aprendemos um bocadas o coisas. Nito é um menino negro, com uma família negra.

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“Tanto Tanto” da escritora inglesa Trish Cooke, com ilustrações de Helen Oxenbury, ed. Ática, exemplifica bem o que estamos falando aqui: narra a tarde de um bebê ao ser festejado por cada membro da família que chega em casa. O bacana do livro é que traz uma família negra comum, que pode ser qualquer família. Não é uma história sobre negros ou para negros, é uma história sobre um bebê, qualquer bebê e que pode ser o espelho para muitas crianças negras.

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Outros livros que entram nesta categoria são: “Lulu adora a Biblioteca”, de Anna Macquinn e Rosalind Beardshaw,  editora Pallas; “Cadê Maricota”, May Shuravel. Editora Salamandra; “O balde das chupetas”, Bia Hetzel e Mariana Massarani, ed. Binque-Book. A “Cinderela das Bonecas” de Ruth Rocha e ilustrações de Mariana Massarani, editora Salamandra.

Ampliemos nosso olhar e busquemos a diversidade na literatura. A ausência de personagens negros causa impactos profundos na construção da identidade de meninos e meninas como Cleidson. Como diz Regina Dalcastagnè, o que está em jogo na literatura é a possibilidade de falar sobre si mesmo e sobre o mundo e de “se fazer visível dentro dele”.

 

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Este livro comeu o meu cão!

Sexta na Livraria!!

Que tal ir com seu filho a uma livraria ou biblioteca e achar um livro bem bacana para o fim de semana? Depois vem aqui e compartilha com a gente 🙂

Nós escolhemos uma dica do nosso amigo Zé Carlos, lá da livraria Galileu do Largo do Machado. Ele sempre tem um livro bacana para nos apresentar sobre literatura infantil. Essa semana ele me mostrou “Este Livro comeu o meu cão!“, texto e ilustração de Richard Byrne.

O livro é super divertido! A gente embarca na história da Bella, a menina que estava passeando com seu cão pela página do livro quando de repente ele é engolido pela….dobra do livro!!! Bella chama um amigo para ajudá-la e adivinhe, ele também é engolido! Vem a ambulância, o carro de bombeiros e todos desaparecem na dobra. Mais umas páginas e Bella também desaparece. Nós leitores somos convidados a ajudar, mas calma, não seremos engolidos, ufa!!  O pedido vem de Bella que diz: “caro leitor, seria ótimo se você pudesse nos ajudar! Por favor, vire o livro de lado e chacoalhe”. E não é que no meio da livraria fiquei eu ali chacoalhando o livro!!  Ninguém escapa a uma boa história!

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Valeu, Zé Carlos!

 

Há outros dois  livros muito divertidos, e na mesma direção que este, do autor: “Estamos no livro errado!” e “Este livro está fora de controle!” . Diversão garantida. Vale a pena conferir!

Este Livro comeu o meu cão!“, texto e ilustração de Richard Byrne. Editora  Panda Books. R$36,90.

Esse chapéu não é meu

Este chapéu não é meu,  livro do canadense Jon Klassen, conta a historia de um peixinho que comete um delito. Logo no início temos a confissão: “Este chapéu não é meu, acabei de roubar”. Pronto! Nossos pequenos leitores querem saber o que vai acontecer e não desgrudam os olhos do livro até o final. E depois voltam e leem de novo, e de novo, e de novo….

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Klassen disse em uma entrevista ao jornal The Guardian que no momento em que pensou a história decidiu que seria um monólogo. Sua inspiração foi o conto “The Tell-Tale Heart” (O Coração Delator)”  1843 , de Edgar Allan Poe.  Da mesma forma que o narrador de Poe,  o nosso peixinho quer nos convencer que está tudo bem, mesmo após ter cometido um delito.

Klassen queria dar expressividade aos personagens e pensou como seria um “peixinho culpado”? Resolveu a questão  simbolicamente, através do olhar. Um recurso simples mas com grande efeito. Os olhos dos personagens sintetizam o que eles sentem. O peixinho, preocupado; o caranguejo, ressabiado;  o grande peixe, zangado!

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Este chapéu não é meu é um livro álbum onde palavras e imagens  se contradizem.  O peixinho, que é o narrador da história, diz que acabou de roubar o chapéu mas que o dono não vai descobrir tão cedo.  A imagem nos mostra que não é bem assim.  Esse recurso enriquece a imaginação do leitor, que já sabe antecipadamente pelas imagens o que acontece de verdade e o que o peixinho acha que está acontecendo. A vontade do leitor é de avisar ao pequeno peixinho o que está acontecendo.

O peixinho tenta nos convencer (e a convencer a si mesmo) que tudo está bem, mesmo sabendo que o que fez pode não ser legal. Ele  nos confidencia de que já sabe aonde vai se esconder, que ali ninguém vai encontrá-lo. Esse lugar, cheio de plantas altas, com folhas que tem formato de peixe, parece-lhe o lugar ideal. No meio do caminho encontra um caranguejo que promete não contar que o viu. Ele entra nesse esconderijo e logo atrás surge o grande peixe. Será que ele encontrará o peixinho?

A forma como algumas crianças entendem o livro e resolvem a história é muito boa. Algumas afirmam que o peixinho escapou e que está escondido entre as folhagens, outros veem na repentina ausência do narrador o seu trágico fim.  Na  entrevista para o jornal “The Guardian”, Klassen diz que no momento em que você vê pela primeira vez a imagem do dono do chapéu você sabe o que vai acontecer. Você sabe?

Este Chapéu não é meu.  John Klassen, editora WMF Martins Fontes.